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A última publicação de Manuela Monteiro, destinada ao público infanto-juvenil, foi lançada no passado dia 25 de Abril, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco onde esteve presente Leonel Rocha, na qualidade de Vice-Presidente da Câmara e Vereador da Cultura, a quem cabia abrir a sessão. A apresentação da obra esteve a cargo de Artur Sá da Costa, em substituição do malogrado professor Vasco Moreira.O evento contou, ainda, com a leitura de trechos da obra por Vitória Triães e Fátima Almeida, com a declamação de poemas de Abril, a voz de Ivo Machado e um dueto de guitarras.
A Obra
A Casa da Romãzeira é um livro que se salienta tanto pela beleza estilística como pela temática abordada de forma polissémica, onde se fala de uma é poça de transição histórica do país, cheia de convulsões, sob a forma de parábola, na qual múltiplos significados espreitam nas entrelinhas. Esta mesma polissemia coloca a escrita infanto-juvenil de Manuela Monteiro ao lado da dos contos infantis de Wilde ou de Saint-Éxupery, que tentam chegar ao lado infantil, pela via afectiva, do público adulto. Sobretudo esta estória em particular, porque se insere nas comemorações do 25 de Abril em Portugal com a finalidade de explicar às gerações mais jovens os factores motivacionais que estiveram na origem da Revolução dos Cravos.
As ilustrações, da autoria de José Emídio, reflectem a coloração da plumagem do chapim real, as quais Manuela Monteiro associa ao mês de Abril – “o mês azul e oiro”. De realçar a correspondência entre o desenho e os textos da autora, conseguindo, inclusive, ilustrar os poemas seleccionados por Manuela Monteiro dos Poetas de Abril, como Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel Alegre, Padre Fanhais, entre outros…
A acção passa-se na Casa da Romãzeira, num lugar “onde é sempre Abril”. É uma casa escondida num jardim na qual a profusão da fauna e da flora lembra o paraíso genesíaco onde se esconde a árvore da Vida ou do Conhecimento, personificada na Romãzeira. O jardim parece envolver a casa, que encerra em si um segredo, protegendo-a. Um segredo que é guardado pelas sucessivas gerações de joaninhas que guardam a memória do tempo e da mudança.
Também a presença de outra árvore – “a oliveira, de que não se sabe a idade” – representa não só a paz mas, também, a permanência de um património histórico que é necessário preservar.
Outro elemento que se destaca nesta história é a nota de realismo mágico que vem colorir o texto e estimular a imaginação através do diálogo entre as duas joaninhas: a Joaninha-que-voa e a Joaninha-Menina, neta do patriarca da casa da Romãzeira.
O período de transição para a adolescência da Joaninha Menina assinala a mudança necessária que a torna capaz de ser portadora do segredo da Casa da Romãzeira, cuja transmissão será levada a cabo pela Joaninha-que-Voa, exactamente no dia do 15º aniversário da Joaninha-Menina. Revelação que é introduzida pelo diálogo que se segue e que se caracteriza por ser o ponto culminante da narrativa:
“Estás diferente, Joaninha-que-voa. É como se uma nocturna asa tivesse pousado sobre ti e te cobrisse de sombra”.
Este será o momento em que a Menina se apercebe da tensão da amiga que está prestes a revelar-lhe algo de muita importância.
Ao que se segue a resposta:
“E tu estás resplandecente, Joaninha-Menina. É como se houvesse dentro de ti um sol que te invadisse de luz”.
É após esta introdução que a Joaninha-que-voa revela o segredo da Casa da Romãzeira relacionado com a Revolução e o passado da Avó da Joaninha Menina…
Com este livro, a Autora pretende não apenas mostrar o que está subjacente à revolução de Abril, mostrar a mudança no quotidiano das pessoas, mas também homenagear os poetas que tentaram mudar a direcção do vento ideológico, onde os poetas são vistos como guardiões da memória de um povo, da mesma forma que a Joaninha-que-voa é a guardiã da memória da Casa da Romãzeira e dos que lá viveram:
“Os poetas são os feiticeiros das palavras. Num só verso põem a alma inteira. Num só poema, toda a beleza do mundo”.
E a maior feiticeira das palavras na literatura infanto-juvenil é, sem dúvida, Manuela Monteiro.
Etiquetas Crítica, Manuela Monteiro
Paulo Castilho, vencedor de quatro dos principais prémios literários nacionais, apresentou-nos no final de 2008 Letra e Música.
Depois de uma ausência de oito anos, o livro foi lançado envolto de uma imensa expectativa em torno de um dos mais destacados escritores portugueses da actualidade. Mas que dizer de Letra e Música?
Se na contracapa somos avisados para o seu “estilo cinematográfico, coloquial e directo”, a verdade é que ele se mantém constantemente ao longo do livro, tornando pouco perceptíveis as trocas de voz narrativa entre Filipe Omega Ferreira e Isabel Maria. Aliás, mesmo aquando da introdução de excertos do diário de Mónica Mendes (a personagem central sobre a qual se desenvolve toda a narrativa), a mudança de tom é pouco perceptível. Mas será que é mesmo estilo cinematográfico? Se Hemingway inaugurou o estilo jornalístico e Dan Brown o cinematográfico, não sei sinceramente onde colocar o senhor Paulo Castilho. A escrita do autor não se encaixa em nenhum dos perfis, resumindo-se a um conjunto de coloquialismos que por vezes nos fazem lembrar algo entre Hemingway e Bukowski, sem nunca se conseguir equiparar a nenhum deles.
O tom coloquial carrega ainda consigo uma crítica mordaz e satírica à maneira de ser portuguesa, sobretudo através de notas de rodapé que vão sendo apresentadas amiúde no decorrer do livro. Contudo, a sátira que nos é apresentada cai por vezes no absurdo perdendo a fleuma britânica que o autor tenta impor no seu ritmo narrativo, recorrendo a expressões vulgares que acabam por banalizar e amolecer ainda mais a força narrativa. Paulo Castilho consegue, assim, aproximar-se de uma classe social que afirma constantemente abominar: a classe média ou o portuguesinho, causador de todos os nossos males e atrasos seculares. Quando assim acontece, ouso mesmo lançar que Paulo Castilho cai no ridículo da crítica fácil e redutora, facilmente desiludindo o leitor. A piada sobre se Mónica estaria a matar Lennon entre 70 e 72 é apenas um exemplo de como o autor de Letra e Música tenta criar piadas que não resultam, uma vez que John Lennon foi assassinado em 1980.
As constantes referências à premente necessidade de publicação do diário de Mónica Mendes acabam por ser redundantes, excessivas e até reveladoras do fenómeno, descrito por Gabriel Zaid no seu Livros de Mais, de excesso de publicação. Talvez o próprio Paulo Castilho seja disso fenómeno. Por vezes a narrativa parece evoluir de forma forçada como quem se esforça por encontrar um tema que permita sair do bloqueio.
Quando, ao fim de 200 páginas, se acabam as referências directas ao diário de Mónica Mendes e surge a necessidade de transferir a acção até aos Estados Unidos, em busca de mais informação, o romance quase que conhece uma nova vida, motivando-nos para as 60 páginas finais. Aí, a escrita conhece um novo fulgor, num verdadeiro paralelo com o intensificar das vivências de Isabel Maria (sobrinha de Mónica Mendes) que acabam num quase fechar de círculo quando ela acaba por se envolver amorosamente com um antigo amante da tia.
A descrição da vida boémia de Mónica Mendes, que termina abruptamente com a sua morte num acidente de viação, acaba por ser uma referência indirecta à vida de Ana da Silva, vocalista da banda punk The Raincoats e prima do autor.
Mas, no fundo, o tema principal do romance acaba por ser a procura constante de algo metafísico (a verdade, a identidade, a busca interior do eu) e que em muito se assemelha à temática do grande romance norte-americano da eterna procura e da fronteira.
De facto, o mais recente livro de Paulo Castilho tenta introduzir no imaginário português um dos mais fortes temas do romance norte-americano, convertendo-o enquanto algo comum a duas gerações completamente distintas.
Se o conseguiu? Cabe ao leitor decidir.
Paulo Castilho
Oceanos
2008
Etiquetas Crítica, Paulo Castilho
Nascida no século XV na província do Rajasthan, no seio de uma família Kshátryia – a casta dos nobres e guerreiros hindus – Mirabai demonstrou, desde cedo, uma forte devoção ao deus Krishna, cujo culto nunca foi visto com bons olhos pela família do marido, a qual privilegiava o culto a outras divindades.
Mirabai compõe então poesia erótico-sacra, canções espirituais, breves e rimadas – as padavali – onde celebra a união erótica e mística com a divindade, a qual aparece mencionada, nas suas composições, com os diversos cognomes que lhe são frequentemente atribuídos e que representam cada qual uma faceta ou atributo de Krishna: Shyam ou Azul, cor associada ao deus pela por simbolizar a beleza e a espiritualidade; Mohan que significa encantador; Bihari, epíteto que significa “alegre” ou que gosta de se divertir; Hari, a incarnação de Vishnu para designar “aquele que lava os pecados” e Giridhari ou “aquele que move montanhas”.
Um dos símbolos mais utilizados para representar a beleza de Krishna nos poemas de Mira são as penas de pavão que ornamentam a coroa do deus.
Mirabai ou simplesmente Mira, após enviuvar, dedica-se a encenar os rituais e cerimónias de adoração ao deus, não só compondo as canções que serão entoadas no templo, mas cantando-as ela própria e dançando durante os rituais ao som das próprias padavali que compôs.
Este comportamento, tido como inadequado para uma nobre viúva na época, desencadeou a perseguição à jovem por parte dos membros da família do falecido marido, que se traduziram em várias tentativas de envenenamento, mencionadas na obra, devido a esta conduta tida como escandalosa: as viúvas, na Índia, são ainda hoje consideradas um fardo para a família do marido, ocupando, por isso, uma posição marginal na sociedade hindu.
Mira expressa na sua poesia a ânsia desesperada de se agarrar à vida através da entrega a um amor absoluto, personificado numa figura masculina que representa o modelo perfeito do Amante construindo nas suas canções a união mística com a divindade, num ritual hierogâmico – casamento/acasalamento sagrado – de que são exemplos trechos seguintes:
(p. 14) O Senhor de Mira
É Hari, o Indestrutível
Por ele sacrificaria tudo.
Ou
(p. 15) Amigas, Shyam sorri
e os seus olhos brilham
quando se encontram
com os meus
As sobrancelhas são o arco
e os olhares furtivos as setas
com que me trespassa o coração
sucumbi ao contemplar a tua
beleza Toda a minha família
tenta em vão dissuadir-me
(p. 16)
(…) O meu coração está ébrio
de Shyam…
Na poesia de Mirabai, podemos encontrar, ao examinarmos as suas canções com atenção, alguma ambiguidade no que toca à significação ou polissemia: o amante, seja ele na forma Shyam, Hari, Bihari, Mohan ou Giridhari pode realmente situar-se no plano do supra-sensível, mas por vezes temos dúvidas. Ao lermos alguns poemas deparamo-nos, por vezes, com a sensação premente de que o objecto de desejo, que leva a poeta a cantar de forma tão pungente a ausência, se trata na realidade de um amante carnal, talvez um yogi a quem chega a mencionar num dos poemas, provavelmente protagonista de um ritual simbólico onde tivesse representado o papel do deus contracenando com a poeta, dançarina e sacerdotisa, num ritual hierogâmico.
Assim sendo, Mira poderia ter feito parte integrante de um ritual de acasalamento com o “deus”. Mas ao ceder o lugar a outras bailarinas e sacerdotisas que teriam, tal como ela, de prestar honras a Krishna, passa a sentir a rejeição, o abandono e a perda que passam a dominar-lhe o pensamento. Este sucedâneo do deus não poderia vir nunca a pertencer-lhe uma vez que, ao ter que representar o papel da divindade, este nunca poderá pertencer a uma única mulher, pois o deus pertence a todas as mulheres servindo a toda a humanidade.
Senão, vejamos os poemas que se seguem:
(p. 21) Só sei dançar
para o meu Mestre
despi-me de toda
a vergonha…
(p. 25) … Quem recusaria uma taça
de néctar para beber água
salobra? O Senhor de Mira
satisfaz os seus desejos
(p. 27) Irmã o Senhor dos Pobres
uniu-se comigo num sonho
uma multidão de deuses
formava o cortejo nupcial
(p. 28) Como pode alguém rejeitar Shyam?
Ninguém bebe
água dos charcos nos meses
da chuva A água de Hari
transborda Não há água melhor
para a minha sede
(…)
A dor de Mira vem
da separação O que ele
quiser que ela faça
ele fá-lo-á
Mira chega a um ponto em que parece convencer-se de que só conseguirá a absoluta união com o deus propriamente dito, noutro plano existencial, após cumprir todo o karma na altura em que já não será necessário reencarnar, como podemos constatar na p. 29:
Este mundo é uma sebe
de roseiras-bravas e a estrada
para o amado está cortada
Mira chegará a ele
cantando as suas glórias
A suposta incorporação do deus num corpo humano que actua como se fosse a própria divindade parece confirmar-se na p. 35, onde é referida a presença de um yogi a representar o deus:
Amar um yogi é como amar
o infortúnio Murmura
palavras doces quando
estás com ele Depois
esquece-te e parte
como qual colhe e rejeita
um rebento de jasmim
(…)
Hari traz-me
de volta a tua beleza Sem
te ver eu não consigo ver
Nas pp. 36 e 37 a poeta torna-se ainda mais explícita:
(p. 36) Depois de teres ateado o fogo
do amor para onde foste
Shyam? Depois de teres
lançado a barca do amor
no oceano do desejo
abandonaste a tua fiel
companheira na rebentação (…)
(p. 37)
Estou louca de amor
E ninguém se apercebe
como posso dormir
se o meu amado dorme
com outra
E
(p. 38)
Mira
foi mordida pela serpente
da ausência
A chuva aparece como instrumento de Hari Krishna como sinal de que o fogo do desejo foi aplacado para dar lugar à suavidade e à constância do amor.
Em relação às críticas dirigidas pela família no que diz respeito à sua postura em recusar-se a ser uma viúva conformada e remetida para o anonimato, isto é, confinada à clausura do lar, Mira exprime a sua insubmissão no poema da página 49:
(…)
os idiotas instalaram-se
no trono enquanto os sábios
mendigam de porta em porta
(…)
o rei persegue
Os amantes de Deus
Mira associa ainda o fogo do amor ao sofrimento por supor que a felicidade extrema implica o seu simétrico - o extremo desespero – expressa no belíssimo poema da p. 50.
“Amiga não me fales de amor”
Apenas as chuvas da monção conseguem aplacar o fogo do desejo (vide p. 51) no poema
“O amor chegou com as chuvas”
Passa então a dominar uma emoção mais persistente e invasora que se insinua, insidiosa, e que se espalha por todos os recantos da vida como a água da chuva: o amor. A chuva que desencadeia a alegre dança nupcial dos pavões: a ave de Krishna.
A impossibilidade de desposar o amante ideal, seja ele o sacerdote que do corpo do deus quer o próprio Krishna, tê-la-á levado, muito possivelmente, à procura da união mística com o deus que só conseguirá plenamente após a morte…
Poemas recheados de imagens de uma beleza pungente de uma mulher com uma coragem invulgar para exprimir emoções num meio hostil…
Mirabai
trad. Jorge Sousa Braga
Assírio & Alvim
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